Crônica de uma Escuridão

Abaixo, "Crônica de uma Escuridão" publicada hoje (08/06/2011) no meu blog da Rádio Nova Brasil FM. O link para o blog é http://www.novabrasilfm.com.br/blog/cristiane-tavares/cronica-de-uma-escuridao/


Ontem choveu muito em São Paulo. Eu chegava em casa por volta das 16:30 horas. Foi o tempo de pegar o elevador, chegar ao décimo andar e a luz acabar. Ainda estava claro, consegui encontrar as chaves. Porém, muito rápido o dia se fez noite e a escuridão tomou conta da sala.

Aquele espírito de jornalista se fez presente e tentei descobrir o que teria acontecido. Mas...como fazer isso? Peguei meu mp3 e sintonizei no rádio. Assim que eu consegui encontrar alguém falando sobre o assunto, a bateria acaba. Já xinguei a mãe de alguém, mas, nesse breu, acabei pedindo desculpas. Melhor não brincar com isso. Minha única companhia nessa escuridão era a Mel, que dormia tranquilamente num sono cheio de biscroks.

Que fazer então? Computador não liga. Rádio e TV não ligam. Recarregar baterias nem pensar. Andar pela casa, só guiada pela minha intuição de 32 anos morando no mesmo lugar. Peguei um cobertor e deitei-me ao lado da Mel, esperando a Eletropaulo acabar o serviço. O tempo foi longo. Longo. Loooongo.

No silêncio, passei a prestar atenção em certas coisas. Há tempos não escutava as batidas do meu coração. Ontem as escutei. Fiquei um minuto só contando os tun-tuns, como numa hipnose, e só despertei com um clarão de um farol de carro, refletido no teto da sala. Do coração, passei a acompanhar o movimento daquelas luzes, que corriam pelo teto como se fugissem de alguém e sumiam pelas paredes. Pensei nessas pessoas que estariam voltando para suas casas após o trabalho, e também se sentariam em alguma escada esperando a luz retornar e nesse meio tempo, colocariam o papo em dia com aquele vizinho sumido.

De repente, outro clarão. Um raio forte que refletiu na carinha assustada da Mel. Peguei-a no colo, embrulhada num cobertor, e fomos à janela acompanhar o fenômeno natural pelo vidro. Ouvia a respiração dela ofegante. Depois acalmando, relaxando o corpinho e ficando sonolenta de novo. A orelhinha dela esbarrava na minha. Só no silêncio é possível ouvir a respiração de um cachorro, as batidas do nosso coração e os barulhos da cidade. Coisas que passam despercebidas no nosso dia-a-dia.

Outro raio e esse consegui ver refletido no copo de cristal da estante. Há quanto tempo eu não usava aquele copo! Fiquei olhando para ele e lembrando de quem o ganhei. Bateu saudades. Voltaram as recordações. E o breu continuava, cada vez mais breu.

Me deu vontade de escrever. Solução? Vela. Acendi uma e peguei papel e caneta. Nesse clima já olhei para a caneta como se ela fosse uma pena e voltei à época medieval. Escrevi breves linhas dessa crônica , mas a luz fraca incomodou meus olhos. Fechei-os e só ouvia o barulho do vento nas frestas das portas. Lembrei de todas as cartas que eu escrevia antes de existir o email. Era bem mais interessante. E mais humano.

Sem música, sem livro, sem vozes, o silêncio começa a fazer barulho. Barulho dentro da minha cabeça, e começo a pensar nas pessoas com quem deixei de falar nesse dia. Pensar nas palavras que deixei de dizer. Nos abraços que deixei de dar. E os raios caindo, e os carros passando, e a Mel dormindo, e a fome chegando. Ouço o barulho do meu estômago. Já são quase 20:00 horas e a luz não volta.

Mas confesso que essa escuridão e o silêncio foram necessários para mim. O pensamento foi longe, houve uma espécie de “balanço” final do dia e o retorno de lembranças antes adormecidas. Acredito que todos nós precisamos desses momentos. Um blecaute na rotina. Um teste nos cinco sentidos. Uma parada obrigatória nos boxes dos pensamentos. Desacelerar. Desligar a tecnologia que nos cerca para poder realmente entender os sentimentos. E apenas olhar um relâmpago, ouvir os batimentos do coração e acariciar um ser que você ama para agradecer por mais um dia de vida.