Jornalismo na Rádio Nova Brasil FM

Muitas pessoas têm curiosidade pra saber como funciona o jornalismo de uma rádio ou uma TV. Como que nós, repórteres e redatores, conseguimos chegar à notícia e como é feita a seleção delas.

Bom, hoje vou falar por mim. Há 6 anos e meio sou redatora da Rádio Nova Brasil FM. Sou responsável pelo programa Nova Informa, que são boletins informativos que entram de hora em hora na programação,  lidos pelo locutor do horário. Por ser redatora (e não repórter) e de uma rádio FM (e não AM) o ritmo é bem mais tranqüilo, já que não preciso sair à rua fazer “externas”, como chamamos as matérias fora da redação. Mas não deixa de ser pauleira, já que tenho horários pré-definidos para que a notícia entre no ar. E na Nova Brasil FM transmitimos além da capital paulista, para a Rede, que inclui Salvador, Recife, Brasília e Campinas. 
 
Nas nossas instalações na Avenida Paulista 2001 temos 2 estúdios. Um que transmite somente para São Paulo, e o outro para a rede. Portanto, as notícias devem ser diferentes. Não interessa para o cara que escuta a Nova em Recife, saber sobre a praça de natal da Avenida Paulista, não é mesmo? Então tenho duas laudas diferentes: uma que vai escrito SP e outra REDE.

Pois bem: chego às 7 da manhã à rádio, já com os jornais do dia (Folha e Estado). Ao mesmo tempo ligo a TV na Globo e abro todos os portais de notícias da web (G1, agência Estado, Último Segundo, Folha Online, Terra, UOL, BBC Brasil)  enquanto vou comendo meu lanchinho de peito de peru light com Nescau. rsrsrs E ao mesmo tempo também abro meu Outlook e baixo todos os emails, cerca de 200 por dia. Ou até mais, dependendo do mês. Tudo release de assessorias de imprensa que também abastecem as redações e são muito úteis. 



Ufa, bastante informação. Aí é hora de botar a cabeça pra funcionar. Qual é a notícia do dia? Normalmente é a que está nas manchetes da maioria dos veículos. Então será esse o primeiro boletim. Se for um assunto de importância nacional, uso a mesma pauta tanto para SP, quando para a REDE. Por exemplo, o adiamento da prova do ENEM. Interessa para todas as praças. Eu leio-escuto a notícia e a reescrevo com minhas próprias palavras. Normalmente 3 parágrafos de 3 linhas, caixa alta, arial, tamanho 14. Imprimo a lauda e levo ao estúdio para ser lida pelo locutor. Pronto, já foi a primeira. Isso lá pelas 8:40 hs.

Os próximos boletins do Nova Informa vão sendo escritos de acordo com as notícias que surgem. Pedágio vai aumentar em janeiro? Nota pra SP. Presidente eleita Dilma Roussef fechou o ministério? Pauta para Rede. Perceberam? Pautas de interesse nacional vão para o estúdio REDE e ocasionalmente também para SP. Agora as notas de SP são exclusivas do estúdio SP.

Os releases (que são matérias redigidas pelas assessorias de imprensa com notícias sobre seus clientes) também ajudam. Por exemplo, recebo sempre releases do Ministério da Saúde, com informações completas sobre vacinação, ou doação de sangue, ou campanhas do governo. Nos textos vêm os telefones e qualquer dúvida na hora de escrever a notícia, algum dado que faltou, é só ligar para eles. O telefone de um jornalista deve ser liberado para fazer ligações até ao exterior! Ouviram chefes??



Todo cuidado é pouco na hora de escolher e escrever a notícia, para não dar a tal “barrigada”, que no jargão jornalístico significa “dar uma notícia errada, ou falsa”. Isso acontece quando se tem uma busca incansável pelo furo ( a notícia dada em primeira mão) e nem sempre tempo hábil para se identificar a veracidade daquela informação. Para evitar erros assim, o ideal é bater aquela informação em todos os portais de notícias e, melhor ainda, ligar direto para a fonte, ou para a assessoria de imprensa, e checar tudo.

Na Nova sempre procuro dar prestação de serviços. Isso já é um pouco meu perfil pessoal. Sempre dou notícia quando a fundação Pró-Sangue precisa de doadores, quando o governo faz campanha de arrecadação de roupas, quando a tarifa de ônibus vai aumentar, coisas assim. Penso que tenho amigos meus ouvindo e que gostariam de saber sobre isso.
Aí você diz assim: mas se é só reescrever uma matéria que já foi feita, pra que precisa ser jornalista? Uma pessoa que escreve bem não poderia fazer esse trabalho?


NÃO. Só o Gilmar Mendes acha isso.

Nesse momento entra a sensibilidade do jornalista. O conhecimento em saber distinguir o que pode ser notícia, do que é propaganda. A eterna confusão entre jornalismo e publicidade. Se você tem na mão uma pauta enviada por assessoria de imprensa sobre a inauguração de um posto de gasolina na Avenida Paes de Barros, isso não é notícia. Isso é propaganda sobre o posto.
Se nessa mesma inauguração tiver a presença do presidente Lula, porque o posto só venderá biocombustível, a base de cana de açúcar, isso sim é notícia. Captaram? Sempre tem que ter um “gancho”, algo que chame a atenção, ou que seja oportuno naquele dia, para que uma informação se torne notícia. Informação pode vir a ser uma notícia. Já a notícia sempre é uma informação.

É essa linha tênue que poucos profissionais sabem identificar. Pra isso entra a faculdade de jornalismo e a experiência profissional em veículos de comunicação. Indico a leitura do livro “Jornal Nacional: Modo de Fazer”, escrito pelo próprio Willian Bonner. Sensacional.



O perfil do Nova Informa vai muito de quem o escreve. Nas minhas férias, os boletins foram feitos por outro jornalista que, certamente, tinha uma outra visão de hierarquia de notícias. Eu desencanei, por exemplo, de falar sobre o trânsito da capital paulista logo cedo. Porque é sempre a mesma coisa, sempre os mesmos lugares parados, sempre os mesmos problemas. Para mim, falar de manhã que a Marginal do Tietê está travada nos 2 sentidos, já não é mais novidade. Prefiro usar o espaço para falar sobre o aumento na tarifa do ônibus, ou sobre o temporal que derrubou árvores e que pode voltar com força hoje de novo. E outra: para saber sobre o trânsito, tem, a rádio Sul América, não é? 

Então, logo de manhã, falo sobre o problema no metrô, a greve dos aeroviários (ou a suspensão dela), prazos que terminam hoje, etc. A noite, já são notícias mais “frias”, aquelas que não são tão instantâneas, que podem ser lidas a tarde, a noite ou na madrugada, dando um apanhado geral do que aconteceu no dia.

Depois, todos os boletins do Nova Informa são postados na home page www.novabrasilfm.com.br e podem ser lidos depois, caso não tenha conseguido anotar um telefone, ou um endereço, porque estava dirigindo. Rádio é assim mesmo.



Tenho plantões aos sábados, que são revezados com o outro jornalista, quando a grade do jornalismo é menor do que a da semana, mas não menos trabalhosa. Aos domingos tenho folga, também sou filha de Deus!! 

Essa é uma parte do jornalismo da Nova Brasil, apenas o Nova Informa. Temos também o Nova Notícia, de 2ª a 6ª, das 6 as 8 da manhã, e o Radar, programa de entretenimento e informação, que vai das 18 às 20 horas.

É isso, queria matar a curiosidade de muitos de vocês, leitores do blog, ouvintes da rádio, estudantes de jornalismo e amigos também, que sempre me perguntam sobre minha profissão. 

Beijo a vocês...e lembrem-se: nada de Escola Base ok??

Cristiane Tavares