Memorial da Resistência


Domingo de sol, fui visitar a exposição “Andy Warhol, Mr America”, na Estação Pinacoteca, em São Paulo. Adoro Pop Art e sou fã deste artista que dizia que “todos terão seus 15 minutos de fama”. Vi suas latas de sopa Campbell, suas serigrafias da Marlyn Monroe, e sua crítica ácida ao consumismo norte-americano dos anos 60.
Mas não é sobre esta exposição que quero falar a vocês. Algo muito mais importante e, porque não, emocionante, me chamou a atenção neste lugar. No mesmo local, há um outro museu, chamado Memorial da Resistência. Vazio. Enquanto a fila era imensa para ver Andy Warhol, só poucos seguranças estavam por ali. Ao longe ouvi Elis Regina cantando “O bêbado e a equilibrista”...Choram Marias e Clarices, no solo do Brasil...
Pára tudo. O que seria aquilo? Memorial da Resistência? Peguei um folder. Comecei a caminhar pelo espaço. A exposição chama-se Direito à Memória e à Verdade – a Ditadura no Brasil: 1964-1985. Um resumo cronológico em painéis fotográficos sobre o período marcado pela deflagração do golpe militar em 1964, e a retomada da democracia, passando pelas revoltas estudantis e pelas campanhas da anistia e das Diretas Já.
Logo de cara uma exposição sobre Carlos Marighella, um guerrilheiro que morreu há 40 anos, ícone do combate à ditadura militar no Brasil. Ah, fascinante! Cartas, livros, imagens de arquivo, biografia, depoimentos, além de textos escritos de próprio punho por Marighella. Confesso que não conhecia nada sobre este brasileiro. Agora sei tudo.

Para quem não é de São Paulo e para quem é, mas não sabe, o prédio que hoje abriga a Estação Pinacoteca, no largo General Osório, foi a sede do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), por onde passaram muitos dos presos políticos durante o Estado Novo e a ditadura militar. Era lá que eles eram levados para serem interrogados, e acabavam torturados. O DOPS funcionou de 1940 a 1983. Com sua extinção, o lindíssimo edifício projetado por Ramos de Azevedo passou a sediar a Delegacia de Defesa do Consumidor até 1997. Tombado pelo patrimônio histórico, o prédio virou a Estação Pinacoteca em 2004.

Bom, sabendo agora a historia do local, vocês vão entender o porquê da emoção de visitar este lugar. Lá no fundo, após passar por toda a aula de história política do Brasil, estão as celas. Cubículos onde ficaram presos Pagu e o então líder sindical, Luis Inácio Lula da Silva.

Quantas histórias de vida passaram por aquele lugar. Senti um misto de tristeza, orgulho e medo. As portas têm trincos de ferro enormes, que fazem um barulho intimidador. Diziam os presos, que pela forma como os guardas abriam aquele trinco, eles já sabiam se iam para a tortura ou se simplesmente era hora do almoço. Imagina! Uma pessoa como a Pagu, jornalista, que apenas participou da organização de uma greve de estivadores em Santos! Nossa, que péssimo era viver nessa época.

Na última das celas reconstituídas, depoimentos sonoros de ex-presos políticos. Basta colocar um fone de ouvido. E um cravo vermelho fincado num vaso de vidro a te olhar, dentro de uma sala escura. Sinistro, não?
Você sai desta exposição valorizando a liberdade como nunca na vida! Valorizando a democracia, a liberdade de imprensa, os Princípios Fundamentais da Constituição Federal, a vida, enfim.

Estação Pinacoteca 
Largo General Osório, 66, Luz, região central de São Paulo 
De terça-feira a domingo, das 10h às 17h30. A entrada é grátis.  
Mais informações pelo telefone 0/xx/11 3337-0185.